Wingene
Metaconsciência: Pensar o Sentir, Sentir o Pensar
“A consciência dança suavemente acima do pensar e do sentir, num baile harmônico…”
O Limiar Meta Consciente
O limiar meta consciente ocorre quando o fluxo automático da vida se transmuta em espetáculo para a consciência.
A diferença entre estar imerso na tempestade de estímulos e tornar-se o espectador a observar suas próprias engrenagens em movimento. O estado meta consciente não é metafísico. Ele se revela na própria consciência, que passa a enxergar a cognição como um sentido. O sentido superior de um ser que não apenas é senciente, nem mesmo somente consciente e sim capaz de abarcar seus sentimentos e pensamentos como um todo.
Pensar o Sentir
O Afeto ganha novas cores quando se apresenta à consciência. A mente não apenas saboreia o sentir, como também o transforma em nutriente. Ao pensar o sentir, o ser humano pode superar as dores, filtrar ruídos e captar os estímulos que realmente interessam. Com isso, ele pode retirar de cada experiência os motivos que colorem a vida. Esse é o primeiro passo para o estado meta consciente. Deve-se ter em conta, no entanto, que existem obstáculos para chegar ao mesmo. Sentimentos que castigam os sentidos, por exemplo, podem dificultar que a razão se estabeleça, pois o esforço biológico em lidar com os mesmos prejudica a serenidade mental.
A razão, ao compreender os sentidos, deve fazê-lo de forma calorosa. Os sentidos não devem perder sua textura e leveza. Para isso é preciso se alegrar com eles. É importante reconhecer a beleza de cada estímulo que chega até a mente, evitando julgamentos racionais sem a participação da felicidade da presença. Assim, por exemplo, uma paisagem admirada pelo olhar ganha mais significado quando, além de ser contemplada, funde-se com a consciência.
Sentir o Pensar
O pensamento, por sua vez, pode alimentar os sentidos. A experiência de perceber o ato de pensar independente do que se pensa traz consigo um avanço ainda maior — a pura propriocepção, a presença da consciência sentida em sua totalidade. Cor, textura, sonoridade, aromas e sabores se misturam ao pensar atento. A consciência já não é mais somente sobre sentir, mas sobre estar. Chega-se ao ápice da atividade mental, onde a eudaimonia ultrapassa o conceito original de florescimento do espírito — ela é sentida.
Esse estado de presença pura e total exige esforço e concentração, entretanto pode acontecer a qualquer momento, seja na observação do ambiente ou em uma atividade rotineira. Todavia, do mesmo modo como não é possível manter a atenção a todo momento, a mente não pode sustentar a metaconsciência por um longo tempo. A biologia cerebral precisa de descanso para recapitular e selecionar experiências.
A Mecânica da Serena Euforia
A plenitude existencial não é um troféu estático ou um estado passivo; é uma ação constante, um florescimento vivo do ser.
Nesse sentido, o quiasmo “pensar o sentir, sentir o pensar” não é apenas um ornamento poético, mas o motor indispensável para a serena euforia. A alegria se estabelece na consciência; da metaconsciência sustentada, surge a serena euforia.
Com a metaconsciência a mente transcende a mente sem abandonar o solo, mantendo os pés na realidade enquanto a consciência flutua acima dos ruídos e do automatismo urbano. A partir deste momento, a mente experimenta a felicidade pura — uma serena euforia que independe das ruínas e ruídos externos, bastando-se na própria presença.
A Dança no Palco da Existência
Para que o conceito não se perca nas nuvens da abstração, a metaconsciência precisa retornar ao solo. Ela não é um refúgio estático longe do mundo, nem uma fuga intelectual dos barulhos da cidade, dos prazos ou das dores. É, antes, o modo como habitamos esse palco.
Quando passamos a pensar o sentir e a sentir o pensar, o piloto automático se rompe. O pensamento deixa de ser uma armadilha ou um feitor de melancolias para se tornar paisagem viva; o sentimento deixa de ser um ruído cego para se tornar matéria refinada pela razão.
A metaconsciência revela sua vocação última: não apenas entender a vida, mas saboreá-la com presença atenta. Essa eudaimonia que brota da virtude e do discernimento passa a ser o tom do nosso próprio caminhar.
Ao acender a chama da atenção no cotidiano, descobrimos que não precisamos esvaziar a mente para encontrar a paz. Basta erguer a consciência um pouco acima do ruído, olhar o horizonte — seja no aroma de um café passado com paciência, no voo de um sabiá ou na florada efêmera dos ipês — e perceber, com alegria pura, o próprio milagre de se saber consciente.