Ipês e Tijolos
Honrando a herança ancestral
O navio de Teseu é preservado pelos atenienses com cuidado. Cada tábua estragada logo dá lugar a uma nova. O que está sendo preservado? Se todas as tábuas são substituídas, ele ainda é o navio daquele que venceu o minotauro?
A herança real não está no substrato material. O navio precisa se renovar para continuar navegando. Os genes se renovam a cada geração, a cultura avança e o conhecimento se amplia. A nau da humanidade precisa de novas tábuas — aço que substitua a madeira.
Nem sempre as tábuas antigas são obsoletas, mas não adianta guardar peças apodrecidas. Navegar no presente implica compreender o conhecimento ancestral e renová-lo com novas descobertas.
Os ipês florescem e murcham, mas suas sementes perpetuam a espécie. Os tijolos se desgastam, mas a arquitetura se renova. A herança ancestral não é museu — é oficina.
Honrar o ancestral não implica preservar tábuas apodrecidas, mas navegar com a coragem legada. Assim, ipês e tijolos se reconciliam: a beleza natural da eudaimonia encontra seu lugar nas cidades, não contra elas, mas através de seu aprimoramento consciente.