Wingene

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Crônicas 2

Fé e atenção

Na saída do hospital, um pedinte me aborda: — O senhor pode me ajudar? — No momento, não tenho nada. — Paga um lanche para mim. Hesito, a alma sofrida a me encarar. Fico parado alguns instantes, meus olhos fitam o rosto tristonho. Decido ajudar: — Onde tem uma lanchonete? — Logo ali. Ele aponta para a rua, uma chuva tímida enegrecia o asfalto. Eu digo: — Vamos lá. O pedinte ainda volta e pega umas moedas com um senhor que estava sentado atrás de nós.

Seguimos juntos até a lanchonete, ele na chuva e eu sob meu guarda-chuva. Um pouco acima, em frente ao local em que eu estacionara, estava nosso destino. Não havia reparado nela quando cheguei apressado para a consulta. Ele escolhe o suco e o salgado. Compro um refrigerante e um pão de queijo, observando o rapaz ocupar uma mesa entre as demais que davam abrigo a cadeiras vazias.

Pago as compras e me sento com ele, que já havia devorado boa parte de uma torta de frango. — Então, meu caro, qual é o seu nome? O que te traz aqui? Ele me olha: — É uma longa história. — Pode contar, não tenho pressa, é o seu nome? — Meu nome é Pedro, estou aqui porque minha mãe me expulsou de casa, eu vivia drogado. Olho para o rapaz, seu fone de ouvido branco pendia no pescoço: — Você vive na rua? Como você passa a noite? — Tem um carro abandonado, eu durmo nele. — E o futuro, não daqui a um mês, mas daqui a quatro, cinco anos. Pedro pensa, cata os farelos que restaram da torta de frango e coloca em cima do guardanapo: — Às vezes eu tenho propósito, mas não cumpro. Eu respondo: — Você pode mirar o melhor, mas é importante saber que nunca será o perfeito, pois somente Deus é perfeito.

Pedro ainda alimenta o guardanapo pensativo. Reinicio a conversa dizendo: — Não adianta ter propósitos, você precisa tentar cumpri-los. Não importa se um dia você erra, em outro dia você pode acertar. Outra coisa, o que você pensa que precisa para acertar? — Ter fé. — Não, a fé não é o mais importante, mas a atenção. Ele se surpreende, eu continuo: — Estar vigilante é o que nos ajuda a saber como estamos agindo, senão ficamos no piloto automático. Acordamos, comemos, dormimos, andamos, sem perceber. Sobre a fé, lembrei-me de uma música do Raul Seixas, acho que é ‘Meu Amigo Pedro’. Nela, eu imagino que o cantor seria Deus, um amigo que está sempre ao lado.

Procuro no meu celular para mostrar a música, Pedro encontra antes e me diz que achou, coloca para tocar e ficamos ouvindo e comentando. Terminada a música, apertamos as mãos e nos despedimos: — Boa sorte, Pedro, prazer em conhecer.


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