Crônicas 2
Singelas letras da imprecisão
A inspiração criativa nem sempre está presente, por isso a mente concentrada produz lentamente. Os dedos sentem o suave toque do teclado, a palma repousa na confortável textura. Lá fora, o barulho do liquidificador tritura a massa que, no entardecer, será torta. O sogro tosse. Onde estão as palavras que moldarão essa crônica? Será que cabe uma metáfora? O teto dos pássaros que esvoaçam na janela? As panelas batem, mas não é um protesto indignado, somente o barulho de quem limpa a louça.
Embalada pelos ruídos, a arte do escritor continua tecendo — a mesma que povoa as galerias. Pode ter brilho diferente, mas ressoa no leitor inspirações semelhantes. Nuvens têm obscurecido o azul nesses dias de primavera. Mas o artista sabe que ele está lá, atrás do branco acinzentado que não chove. Recorda que já usou a metáfora nublada para descrever o triunfo sobre a melancolia, as cores vibrantes que pintam a monotonia. Escuta, de repente, um martelo. Será uma distração ou parte da sinfonia? A percepção e a intenção do verso podem fazer do barulho melodia.
Criar observações é fácil, extrair delas filosofia, nem tanto. Já passou do meio-dia e o que escrevem os dedos não parece grande coisa, mas a mente insiste. Quer explicar o inexplicável, o olhar na tela só enxerga o vazio. Espaço branco ofuscando as sentenças no enorme monitor. O esforço consciente aumenta. A busca pela frase certa também.
O ofício do escritor é uma tarefa delicada, nem sempre transcreve a emoção, o prazer e a dor da vida. Esse tempo que dedica nessas breves expressões serve para falar do esforço, do difícil processo criativo. Nessa arte, a utópica perfeição culmina nas singelas letras da imprecisão.