Wingene

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Ipês e Tijolos

Servidão e liberdade

A luz tênue do sol de chumbo esfria os corações. O calor dos motores não aquece os volantes. Presos às coleiras da servidão, vivem em ilusória liberdade. Farejando as migalhas do poder, guardam o portão dos seus senhores. A cada passo, sentem o peso de sua rotina escravizante. No desbotado cinza do asfalto, queimam suas patas, vigiam as casas sob o jugo velado de seus donos. Julgam estar satisfeitos. Desconhecem que além dos muros existem outros caminhos — não apenas as grades que protegem, mas também aprisionam.

Além dos muros altos e dos portões de ferro, a vida segue em um ritmo diferente. Pássaros, alheios à corrida insana, voam livres entre as nuvens. Seus ninhos nos galhos mais altos das árvores estão longe do latido ensurdecedor. Cortam os céus, de um lado para o outro, sentindo o calor do sol e o frescor do vento. A cada voo, um novo horizonte se abre.

Os latidos da servidão são apenas um eco distante. Mas quantos podem escolher o voo? A corrente que prende não discrimina entre dourada ou enferrujada. Reconhecer as próprias grades é o início da jornada. Não para desprezar quem guarda portões, mas para questionar quem ergueu os muros que separam cães e pássaros.

No canto das aves ressoa uma pergunta: quando todos terão asas para voar?


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