Crônicas 1
Relógios e cafés
Onze horas, o trabalho não rende. Recordo-me dos três relógios levados ontem para trocar a bateria. Um deles, ao contrário dos demais, precisava de conserto. A bateria vazou, sujando toda a máquina. Apesar de ter feito orçamento, quis perguntar para a dona, concluiu-se que valia a pena por ser o mais caro e bonito. Bonito, com corpo de titânio, muito leve. Resolvo fazer uma pausa e levá-lo, quem sabe na volta as ideias estariam mais frescas. Também tenho um relógio de titânio, mas sua pulseira está torta pelo tempo, a efemeridade da máquina frente ao infinito da dimensão medida.
No caminho, passo por uma conhecida cafeteria. Sento-me ao sol, a gerente, amiga de outros cafés, se aproxima: — O que deseja para hoje? — Qual café você recomenda? — Temos o bourbon amarelo, está muito bom. — Por favor, traga uma xícara desse. — Aceita um macaron para acompanhar? — Não, obrigado, somente o café. Leio um pouco, o café chega, continuo a ler. Instantes depois, saboreio o café. Antes de solicitar a conta, digo: — Pode embrulhar 3 macarons, vou levar para a minha filha.
Sigo para a relojoaria, no caminho, uma pomba com plumagem em tons cinza, vistosa, ciscava, enquanto outra, toda preta, se banhava na fonte em frente. Vários jatos d’água a jorrar alcançavam alturas variadas. Noto as lojas e árvores, que continuam como ontem, o que mudou na paisagem foram pessoas, pássaros, veículos e motos no frenesi típico da região.
A fonte me obriga a desviar o caminho ligeiramente. Atravesso a avenida com cuidado, do outro lado, a segunda fonte, singela como a primeira. Por perto, gente sentada a conversar, sem ligar para os outros ao redor. Sigo até o destino. Quase chegando, um garoto passa ao meu lado. Pronuncia algo ininteligível em voz alta, me assustando.
Na loja é rápido, o atendente já tinha o orçamento. Diz que fica pronto na quinta. Me entrega o canhoto número 1666, que remete ao século XVII, quando era raro o ponteiro dos minutos. Saio da loja com o papel na mão esquerda e a sacola com os docinhos na outra, voltando ao fluxo dos pedestres.
No retorno da relojoaria, observo as vitrines. Na fonte oposta, vejo três daquelas aves que povoam o ambiente, aproveitando a água fria. Estavam ali quando passei anteriormente? Das vitrines, passo a olhar os prédios, cumes de várias alturas, numa variação displicente. Uma sensação boa olhar para o alto.
Continuo a andar, percorrendo agora uma subida suave, em direção ao meu apartamento. Já vejo o alto do prédio vermelho e branco. Mais uma avenida a atravessar. Freio a minha pressa ao ver um motoqueiro avançando o semáforo. Ele passa como um raio, cortando meu olhar desaprovador.
Retornando ao lar, caminho até o elevador, a porta se abre, revelando o zelador com uma vasilha de solvente na mão. O cheiro impregna a cabine, misturando-se ao sabor do café que repousa em minha boca. Chegando, sinto o aroma do almoço. Meu relógio marca 12:00 — um tempo que se esticou. Uma hora sentida em instantes de alegria.