Crônicas 1
Pintura modesta
O barulho da TV que o idoso escuta está alto. A tendinite teimosa dói em meu braço. O céu vistoso convida ao aconchego da mente que vibra acima dos ouvidos e da dor aguda.
Transcrevo o momento. A serenidade da consciência permanece. Pesco as letras que saltam no branco. A tela reflete uma pintura modesta do tempo presente.
O olhar atento tece cores na retina mental. O azul derrama-se sobre as telhas inertes. Bandos voam em harmonia. Os pardais conversam em cantoria. Garotos correm brincando e gritando. O som da bola quicando na quadra. Uma máquina corta o celeste. Um rastro efêmero sinaliza sua passagem. Um bando de asas negras paira distante, bailando sem predadores que ameacem seu dia.
O caloroso ambiente envolve o humano, a plácida euforia está na lembrança. Sei que posso vivê-la novamente. Feliz sinto o dia, descanso o pensar. O rastro permanece no ar. Assim como o rastro, haverá novos registros na tela modesta.