Crônicas 2
Do barulho ao canto
As gotas da chuva recente ainda pingam, o cheiro inconfundível de terra molhada povoa meu olfato, disparando memórias de chuvas na roça. Minha vida corrida na cidade é traçada na moto, correndo entre automóveis. Logo o cheiro da gasolina povoará minhas narinas que transportarão desejos no trânsito desvairado.
O mau tempo piora o trânsito, tortura que afeta a todos, mas é mais cruel com o séquito de motoqueiros. O asfalto molhado, o macacão encharcado. Preocupação com as entregas, que precisam estar a salvo na caixa traseira. As primeiras pagarão apenas o combustível, no final restarão pequenas migalhas a alimentar formiguinhas na metrópole fria.
Na velocidade do motor, encontro o primeiro destino. Um prédio elegante, de gente granfina. Estaciono por perto, retiro a pequena caixa, envolvo-a nos braços. Correndo na chuva, chego à portaria. Pacote entregue, tarefa cumprida. A primeira missão no dia que apenas começara. Dezenas de vezes, milhares de portas.
Esperando em uma porta, no meio do dia, ansiava pela rapidez. De repente, uma pausa no barulho do tráfego. Na rua sossegada com árvores frondosas, avisto a melodia de um papa-moscas. Seu canto se misturou com periquitos que se aninhavam em outra árvore. A portaria se abre, a pausa termina. Volto à rotina, dobrando esquinas. Nesse interlúdio alado, minha alma se tocou. Pensei como era escravo das duas rodas e da pressa. Recordei-me de um amigo que indicara um curso. Decidi mudar o rumo, aprender outro ofício.
Ainda foram muitos dias de entrega, juntando trocados. Fiz serviços de pintor, consertei encanamentos. Comecei um curso noturno para aprender a programar. No início, era difícil. Catava as letras no teclado desafiador. Os códigos eram fracos, loops infinitos e erros desanimavam. O pouco dinheiro guardado serviu para pagar os primeiros meses, depois vendi minha moto. Comprei um computador usado, comecei a praticar. Em pouco tempo, o teclar fluía como música.
Passando os dias em casa e estudando à noite, a rotina era outra. Da minha janela, ouvia os periquitos em algazarra todas as manhãs, lembrando daquele dia que mudou meu destino. Estudei com afinco, me tornei um programador. Consegui um bom emprego.
Agora a velocidade não está nas rodas, mas nas teclas ágeis. Os sonhos são entregues nos pacotes digitais, que ajudam pessoas, transformam rotinas. Meus clientes são gratos pelas soluções que dou — ainda formiguinha, mas feliz por quem sou. Na música das teclas, o barulho do trânsito se dissipou.