Crônicas 1
Manhã de domingo
Os tristes dias frios cedem lugar ao enérgico calor. Um sabiá canta por perto, reconheço a melodia agradável de seu canto monótono. Ela já se levantara, preparando o café. Torna ao quarto anunciando os pães de queijo que estão saindo do forno. Posso sentir o cheiro da iguaria. Levanto-me e vou até a sala de jantar, onde já me espera uma cesta com os saborosos pãezinhos. Para não perder o costume, faço pequenos sanduíches com eles e um queijo comprado na véspera.
Minha filha mais nova ainda dorme. Penso que hoje teremos um almoço especial, porque a mais velha, recém-casada, virá almoçar conosco. Esperamos ainda minha cunhada e seus filhos.
Enquanto aguardo, aproveito para trabalhar nos meus textos. Revisando dois que já havia terminado, mas resolvi melhorar um pouco. O estado de graça inunda a consciência. Preenche o espírito com boas vibrações, me protege da avalanche de problemas diários.
Sigo escrevendo nas suaves teclas. A habilidade em usá-las vem de tempos remotos, em que essas eram mais duras e criavam o resultado diretamente em folhas de papel. As folhas não permitiam apagar e reescrever rapidamente e não contavam com assistentes de correção de ortografia. O ato de revisar, antes trabalhoso, agora flui simples.
Apesar das amarras em que nos envolvemos, pode-se mudar de rumo. Um sabiá tem ao seu dispor um único repertório e vive feliz com ele. A escrita me traz alegria, canto em constante mutação.
O sabiá para de cantar, meu sogro cantarola no quarto enquanto escuta o rádio. O rádio anuncia o jogo de hoje. A hora do almoço se aproxima. Saio um pouco, faço a barba e me apronto para esperar. Os zumbidos dos carros aguçam minha expectativa. Enquanto isso, minha esposa chega e pergunta: — O que você está fazendo? — Escrevendo. Com essa pausa, calço os meus sapatos. Os meus pés estavam frios. Na concentração da escrita, não dei atenção a eles.
Ouço o canto da asa-branca, minha filha mais nova acorda, cumprimentando o avô com alegria, depois vem até mim e me abraça, as mãos frias não condizem com a ternura do seu coração. O sabor do café ainda repousa em minha boca, enquanto o cheiro da refeição inunda minhas narinas. A picanha a fritar emite o som característico e emana o aroma da carne que nos espera. Um tempo depois, a mais velha chega, trazendo um pacote de café e chocolates, enchendo a casa de vida com sua voz potente.
Nos reunimos no cômodo do avô, conversando e ouvindo o seu rádio, que toca músicas típicas de domingo. O almoço é servido, momentos intensos em família transcorrem. As visitas se vão, nos recolhemos para descansar. Já passam das dezesseis.
De volta aos meus aposentos, olho para a janela e vejo a asa-branca voando. Ela dá voltas no ar, some atrás de um prédio, reaparece e segue seu voo, sumindo no azul infinito, enquanto o canto do sabiá se mistura ao coro dos pássaros descortinando o entardecer.