Crônicas 1
Mente presente
A mão sente o peso da xícara. O líquido evapora em ondas de fumaça. As pernas cruzadas pressionam a panturrilha. O fumegante sabor esquenta o paladar.
O corpo repousa sereno, sem sentir o peso que sustenta. No primeiro e longo gole, o olhar se volta para a buganvília rosa. Admirando a beleza enquanto sente o gosto marcante.
Uma melodia doce acompanha o ritual, ditando o ritmo paciente. A varanda mostra o azul que se entorna sobre incontáveis prédios. Neles, muitas xícaras que se esvaziam displicentes.
Ao fim dos suaves goles, a sensação se mantém, a mente radiante acompanha a caminhada. Momento de paz em árvores floridas. Saudável exercício contado em pegadas. Partilhado em família.
A trilha é tranquila, o tempo se alonga. Conversas da vida ressoam no ouvido, embaladas pelo som de bicos e latidos. Cada volta encerra com a lembrança do coco gelado — prêmio aguardado.
O exercício termina. O suave gelado encerra o ritmo. Leves passadas retornam ao lar. Em casa, recebidas pela televisão gritante. O poder da atenção se dissipa na cacofonia que polui a audição.
Retornando à varanda, o físico sente o sol. O ruído se abranda. Avistando o horizonte, a mente acalma.