Wingene

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Manifesto Wingene

Criei a palavra Wingene da fusão entre win e gene — vitória e herança. Mas seu sentido ultrapassa o triunfo genético: expande-se na eterna busca pelo saber — nossa herança ancestral. O conhecimento se completa quando se torna prática, que leva ao aperfeiçoamento pessoal. Uma trilha que nunca termina: cada instante nos aproxima do utópico ideal, florescendo em plena eudaimonia — eu (bem) e daimon (espírito). Entendo “espírito” não como substância imaterial, mas como emergência de processos neurais. A experiência de transcendência brota da matéria viva. Nesse sentido, a eudaimonia é felicidade serena — um estado natural que nasce no recinto mental.

A herança genética cria as primeiras luzes da mente. Segundo António Damásio¹: “Os nossos cérebros e as nossas mentes não são tabulae rasae quando nascemos. Contudo, também não são, na sua totalidade, geneticamente determinados.” Esse legado biológico deve expandir-se gradualmente com o conhecimento — chave para o aperfeiçoamento moral.

Mas como, afinal, tecer essa Wingene no cotidiano? Como transformar herança genética e desejo de transcendência em passos concretos? A resposta está num acróstico que ilumina o caminho: Valores, Imperfeições, Decisões e Atenção — VIDA.

Valores são os princípios inegociáveis que orientam cada escolha e ação. A bússola moral que nos mantém fiéis a nós mesmos, especialmente nos momentos de desafio.

Imperfeições compõem a vida: a impaciência com quem amamos, o orgulho que impede um pedido de desculpas. Aceitá-las não significa resignação, mas direção para o aperfeiçoamento.

Decisões nos dão o poder de agarrar as rédeas do próprio destino. O ato corajoso de escolher enfrentar as imperfeições buscando o aperfeiçoamento diário.

Atenção, singular e única, acompanha todo o caminho. A arte de viver no agora, percebendo os detalhes, escutando verdadeiramente.

A mente atenta permite não somente perceber as falhas, mas também sentir experiências únicas. Um evento simples, como apreciar uma paisagem, pode culminar na serena euforia — o pulsar da eudaimonia, as virtudes que se fortalecem no poder de criar.

Criar é descobrir. A vida se amplia na ação de inventar — Invenire, do latim, descobrir. Explorar novos destinos, navegar no oceano natural. Criar é, portanto, a mais pura fonte da eudaimonia — a felicidade de encontrar a terra desconhecida. Caminhos para obras-primas são descobertas do mundo. As respostas já existem — aguardam quem as revele.

Artistas descortinam obras-primas, tecendo com fios do mundo físico aquilo que dança invisível em suas mentes. As descobertas ampliam nossa bagagem cultural, o trampolim que permite cada salto — às vezes modesto, outras ousado. A sabedoria natural está presente no universo, aguardando inventores.

A busca pela eudaimonia nos impele a realizar a Wingene; no entanto, esse objetivo se esvazia na brevidade da vida. No espaço curto da existência, a mente não é capaz de fazer muito. Girar a roda do acróstico VIDA pode guiar a evolução, mas será sempre um passo breve na escala do tempo.

Por que lutar para o aprimoramento se não seremos nós a desfrutar do futuro? A resposta está no que teceram nossos ancestrais e na eudaimonia como experiência presente dessa luta. Nós devemos ser a base das novas gerações, garantindo o seu futuro. Assim, pode-se pensar em uma Wingene coletiva, onde cada geração prepara o terreno para o florescimento de uma sociedade cada vez mais evoluída.

Wingene: filosofia e prática da herança consciente

Notas

¹ DAMÁSIO, António. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


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