Wingene
Wingene: Felicidade agora, futuro ancestral
Vitória das virtudes
Esse ensaio pretende mostrar uma visão de mundo que começou a se desenhar em setembro de 1998 com a criação de um neologismo: Wingene, a fusão entre win e gene — vitória e herança. Seu sentido ultrapassa o triunfo genético: expande-se na eterna busca pelo significado da vida. Um anseio humano, gravado em fios dourados desde o seio materno.
O homem carrega desde a infância questões que incitam; o eterno aprender é herança ancestral. Mas o conhecimento não é tudo, a vitória se completa na sua prática rumo ao aperfeiçoamento pessoal — que nunca termina, pois cada passo mira um utópico ideal. Triunfos alvorecem brilhantes, iluminando o ser que, cada dia mais realizado, se extasia em plena eudaimonia.
A eudaimonia, do grego eu (bem) e daimon (espírito), representa o florescimento da felicidade — um estado perene e sereno, que nasce das forças internas. Alinha-se ao estoicismo, no qual a alegria vem do interior, sendo firme e sólida. O aperfeiçoamento moral vem sendo debatido há milênios; a eudaimonia, segundo Aristóteles¹, é consequência de uma vida virtuosa. Não pretendemos reinventar esse sentido filosófico, mas utilizá-lo como base para a Wingene. O primeiro passo para esse florescimento é o conhecimento, que conduz ao caminho da evolução pessoal. Apesar de meu ávido desejo de aprender, foi com a Logosofia que esse ímpeto se solidificou, pois encarei com maior seriedade o desafio do aprimoramento moral — objetivo principal da obra de Carlos Pecotche².
A Wingene se apoia em bases naturalistas. Por isso, meu conceito de espírito não é metafísico: ele habita o corpo vivente, manifesta-se nos processos biológicos e guarda valores e emoções puras na mente. A poderosa máquina mental pode parecer, em alguns casos, extrapolar o limite corporal, viajando nas ondas das inúmeras conexões neuronais. Mas sua substância é material. Ainda assim, a mente é uma densa floresta, com árvores enraizadas no corpo inteiro que sentem, comandam e pensam. Das raízes às folhas, a floresta é um todo — complexo sistema consciente que dança incessantemente.
Mas se tanto a filosofia clássica quanto a Logosofia já contemplam o aperfeiçoamento humano, por que Wingene? A resposta está em três ênfases modernas: (1) a herança genética como ponto de partida material, (2) a responsabilidade intergeracional explícita — nossa evolução é legado futuro, e (3) a integração entre ciência e filosofia prática. Wingene é eudaimonia sem metafísica, com raízes genéticas que florescem no futuro ancestral.
A herança genética cria as primeiras luzes da mente. Segundo António Damásio³: “Os nossos cérebros e as nossas mentes não são tabulae rasae quando nascemos. Contudo, também não são, na sua totalidade, geneticamente determinados. A sombra genética tem um grande alcance, mas não é completa.” Esse legado biológico deve expandir-se gradualmente com a cultura — chave do aperfeiçoamento moral. Assim, o conhecimento saciará o ser, oferecendo-lhe a oportunidade ímpar do triunfo pessoal.
Esse naturalismo ético reconhece limites biológicos sem determinismo. Nascemos com predisposições — temperamento, capacidades, vulnerabilidades — mas a cultura as modela. A Wingene opera nessa fronteira: entre o que herdamos (gene) e o que construímos (win). Entre a sombra genética e a luz cultural.
Valores e Ação
Mas como, afinal, tecer essa evolução no cotidiano? Como transformar herança genética e desejo de transcendência em passos concretos? A resposta está num acróstico: Valores, Imperfeições, Decisões e Atenção — VIDA.
Valores são os princípios inegociáveis que orientam cada escolha e ação. São a bússola moral que nos mantém fiéis a nós mesmos, especialmente nos momentos de desafio. Eles são o alicerce sobre o qual uma vida íntegra é construída. No entanto, podem estar abafados ou latentes, obstruídos por falhas, sufocados por crenças. Isso permite o crescimento das imperfeições.
Imperfeições compõem a vida: a falta de paciência para brincar com o filho pequeno, a promessa de exercícios abandonada na terceira semana, o orgulho que impede assumir um erro. Sua aceitação evita a busca obsessiva pelo perfeito, a maior inimiga da felicidade. Assumi-las não nos impede de combatê-las. O perfeito é utópico, mas visar o ótimo é fundamental. As imperfeições evidenciam quais valores estão mais fracos. E assim, permitem o aprimoramento diário, polindo as arestas, moldando o caráter. Para isso, entretanto, é preciso decidir mudar.
Decisões nos dão o poder de agarrar as rédeas do próprio destino. Guiados pelos valores, combatemos as imperfeições. Mais do que desejar mudar, é o ato corajoso de escolher enfrentá-las, buscar a cada dia o aperfeiçoamento. São o ponto de partida para atitudes melhores, como a colaboração no lar ou a disponibilidade em ajudar colegas de trabalho. As novas posturas não se cristalizam nos primeiros esforços, visando a meta desejada, deve-se estar ciente de que retroceder e recomeçar faz parte do processo. As decisões orientam o destino, as escolhas e as mudanças.
Atenção, singular e única, acompanha todo o processo. É a arte de viver no agora, percebendo os detalhes, escutando verdadeiramente. Viver o presente em sua riqueza e complexidade, quebrando a rotina do piloto automático. Saber que a mente pode perdê-la não deve ser motivo para deixar de buscá-la, em cada instante da imperfeita jornada. A mente atenta permite não somente perceber as falhas, mas também sentir experiências únicas. Apreciar uma paisagem pode transcender para experiências de pura alegria: a serena euforia.
Revisar os valores, cientes da imperfeição humana, é importante para orientar as decisões. Pois assim como o ser é imperfeito, também é a cultura. Portanto, erros podem ser fruto de incorretas premissas. Os pilares do método científico e do aprendizado constante são a direção para a mente atenta.
Esse método ético-existencial está detalhado em O método VIDA: a Wingene em prática.
Serena euforia
Quando esse caminho é trilhado com dedicação, quando valores se alinham, imperfeições são enfrentadas, decisões são tomadas e a atenção é cultivada — a consciência pode experimentar o extraordinário. Essa experiência reflete a eudaimonia, que emerge do cultivo das virtudes.
A mente se amplia em instantes de intensa alegria em experiências radiantes além do comum. Uma grande euforia, contida e serena; um caloroso aconchego como fogo que não queima, persistindo no cinza urbano ou na tranquila pintura, que da seiva emana — os sentidos e os pensamentos não perturbam, a consciência flutua. Nesses momentos, surge um estado de graça — quando sinapses se elevam, pulsando energia.
Sentir essa dádiva é próprio do humano — mas poucos a buscam, presos nas nuvens das obrigações mundanas, o eterno castigo de Sísifo: rolando a mesma pedra diariamente. Muitas vezes, o peso da rocha cresce com a injustiça social moderna. Isso supera a simples monotonia, tornando-se o negro flagelo da maioria. Apesar disso, o brilho da vida pode favorecer a todos, permitindo florescer a felicidade.
A floresta mental pode bailar nas copas mais altas, favorecendo a serena euforia, onde o corpo é somente o palco dos passos da mente. Basta que estes flutuem no tablado, sem notar a plateia. No conforto do lar, no movimento do trabalho, até em tediosas rotinas, a peça pode seguir. Pois a mente aguarda a deixa da delicada dança — valsa de neurônios em sintonia.
A serena euforia pode acontecer em ocasiões memoráveis, de sentimentos pacíficos e pensamentos harmônicos. Não exige o vazio de respirações marcadas, mas a dança suave além do pensar e sentir. Quando a plateia e o palco não perturbam a mente que se expande, numa grata sensação de ser por si. Sem o clamor das sensações: somente o baile de um ser consciente. Mas essa experiência não pode permanecer estática — a mente que floresce anseia por expandir-se por meio da criação.
Poder da criação
A vida se amplia na ação de inventar — Invenire, do latim, que tem como significado literal descobrir. Tomei contato com essa sutileza estudando a biografia de Jorge Luís Borges. O ofício do artista criador não é diminuído se seu trabalho é desbravar, pois buscar soluções permanece um desafio. Explorar novos destinos, navegar no oceano natural. Criar é, portanto, a mais pura fonte da eudaimonia — a felicidade de encontrar a terra desconhecida. Caminhos para obras-primas são sempre descobertas do mundo. As respostas estão no universo, aguardando que mentes criativas as revelem.
Teorias físicas são modelos, a antiga música das esferas — postulada há quase três mil anos — se tornou elíptica com Newton e avançou ainda mais com a relatividade de Einstein. Essa última, por sua vez, cede lugar ao modelo quântico para a explicação da música das partículas — o imenso e o minúsculo, duas soluções que coexistem. A teoria unificadora repousa encoberta, ansiando que o esforço em vislumbrá-la ilumine novas fronteiras da ciência.
Novas filosofias permanecem à espera. Navegadores do mar metafísico procuram respostas, que já existem em continentes inexplorados. Por enquanto, parecem perdidos, ofuscados por soluções cada vez mais ousadas da ciência e por conteúdos de autoajuda que inundam as prateleiras.
Artistas da palavra e do mármore descortinam obras-primas, criações que refletem o indescritível baile de suas mentes. Tecem criações com fios indeléveis do mundo físico, no esforço de explicar as belezas ocultas sob o véu invisível aos olhos alheios. Assim, a humanidade mantém a herança cultural — fruto do natural — que é oferecida às gerações futuras.
As descobertas seguem acontecendo, nossa bagagem cultural é o trampolim que permite cada salto — às vezes modesto, outras ousado. A Wingene acontece a cada dia, apesar dos fracassos e da desilusão. A sabedoria natural está presente no universo, aguardando inventores. Nesse exato momento, gestam-se em muitos recantos ideias brilhantes, criações inovadoras — cultura que avança diariamente.
Futuro Ancestral
Por que lutar para o aprimoramento se não seremos nós a desfrutar do futuro? A resposta está na eudaimonia como experiência presente dessa luta e no que teceram nossos ancestrais. Como eles, seremos a base das novas gerações, garantindo a sua evolução. Assim, pode-se pensar em uma Wingene coletiva, onde cada geração prepara o terreno para que a próxima floresça em eudaimonia.
O filósofo Ailton Krenak⁴ observa que o futuro é ancestral: os ecossistemas que sustentam a vida precedem a própria humanidade. Preservar esse futuro ancestral natural é fundamental, ainda que não impeça o eventual ocaso de nossa civilização.
Essa sociedade tem um prazo para florescer, a raça humana ruma para um horizonte finito. A urgência na dedicação em evoluir é ditada pelo tempo, pois a seiva cultural não irá pulsar para sempre. A vida humana desaparecerá algum dia, depois ruirá também toda a biologia terrestre. Não colonizaremos outros planetas em tempo hábil; até mesmo as máquinas, nossas herdeiras de silício, eventualmente apagarão.
Nosso tempo é contado nas poucas décadas da finita existência. Temos essa oportunidade para descobrir tudo que pudermos. Inventar a cultura e aprimorar a moral não precisa de motivo. Está escrito em nossa herança: o fogo de Prometeu permanecerá aceso, iluminando o futuro ancestral — mesmo que sua luz precise atravessar a escuridão total para brilhar outra vez.
Infinitas Cosmogonias
A Wingene coletiva pode parecer inútil no tempo cósmico, que torna a existência humana um breve instante. Como encontrar sentido se o fim é inevitável? Meu olhar para a gênese do Cosmos sempre se apoiou na ciência, mas carecia de dimensão existencial. Foi o futuro ocaso da vida terrestre que me forçou a confrontar: qual esperança sustenta o esforço se o universo terá um fim? A resposta veio de uma especulação cosmológica ousada — não como verdade científica, mas como possibilidade que reconforta o espírito: e se a morte de um universo fosse o nascimento de outro?
Essa especulação reflete uma das postulações científicas mais profundas e radicais, onde um buraco negro pode ter na outra ponta um buraco branco. Como descreve Carlo Rovelli⁵: “se vierem comigo, vamos chegar à fronteira do horizonte de um buraco negro, entrar, descer até o fundo, onde espaço e tempo se dissolvem, atravessá-lo, desembocar no buraco branco, onde o tempo é invertido, e dali sair no futuro.” Nosso universo poderia ser então um buraco branco. Imagino a existência de uma sequência infinita de pares de buracos brancos e negros. A vida pode surgir em cada um desses buracos brancos. A dor da perda é mitigada pelo entendimento da eternidade desse ciclo.
O que brotou na nossa nave azul algum dia será cinzas. Não viveremos de novo, tampouco voltaremos em outra oportunidade. Nosso prazo é o que temos: contado em respirações, no ritmo do coração. Para onde irá toda a beleza — os quadros brilhantes da colorida natureza? Esse inevitável futuro não me causa sofrimento, pois enxergo no escuro de buracos massivos, avistando neles negros portais para invisíveis universos — novas cores, outras vidas.
Permanece essa esperança otimista: infinitas cosmogonias à espera de novos inventores que descubram sinfonias inéditas — desbravadores de mundos, arautos da Wingene que nunca termina. A mesma que move a nossa existência, movimentos da música que ressoam no eterno — uma sinfonia da finita existência que segue vibrando na vida sem fim.
A vitória das virtudes se constrói no esforço diário. Somente assim pode-se sentir a serena euforia no presente. Passar adiante o legado, porém, também é fonte de eudaimonia — felicidade agora, futuro ancestral.
A Wingene se realiza em múltiplas camadas: no esforço evolutivo individual, na serena euforia que nos eleva, no poder criativo de descobrir, no legado deixado às gerações futuras e na esperança cósmica de novos universos. Cada atitude atenta rege o ritmo da vida: decisões que superam as imperfeições, valores que moldam o caráter, a existência que compõe linhas de uma sinfonia. Que nossa breve passagem seja mais que simples travessia — compassos que ecoem na música universal.
Notas
¹ ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2024.
² PECOTCHE, Carlos. Deficiências e propensões do ser humano. São Paulo: Editora Logosófica, 2014.
³ DAMÁSIO, António. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
⁴ KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
⁵ ROVELLI, Carlo. Buracos brancos: dentro do horizonte. Tradução de Silvana Cobucci Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2024.