Crônicas 3
A herança real
Nosso veículo corta o labirinto de ruas e avenidas da cidade. Como de costume, conduzimos o Sr. Carlos e Dona Eunice em direção à fundação de Logosofia. Eu e minha esposa Clara temos um relacionamento fraternal com esse casal. Morar em uma cidade nova, longe de parentes e amigos, é um desafio que se suaviza convivendo com esse exemplar casal de idosos. No caminho, comento: — Tenho que abrir uma empresa. — Já sabe que nome vai dar? — Questiona o Sr. Carlos, do banco de trás. — Wingene — O que significa? — É a união de Win e Gene, vitória e herança. — Gostei do nome. Seguindo o caminho, o semáforo fecha. Parados, continuamos o diálogo, enquanto veículos cortam a avenida à nossa frente.
O Sr. Carlos questiona: — Como surge o conhecimento? — É uma dádiva ancestral. — Certamente, Marcos, “A única herança real”, como nos ensina Pecotche. Os painéis de LED do caminho brilham multicoloridos. Clara observa um anúncio em um deles e comenta: — Olhem esses painéis, quanta tecnologia. — Na minha época, pouca gente tinha uma televisão — observa Dona Eunice, olhando com ternura para o velho esposo. Saindo da avenida movimentada, seguimos para outro bairro. Os painéis eletrônicos ficam menos frequentes e o trânsito mais calmo. Quando passamos por uma loja, Dona Eunice comenta: — Olhem aquele reclame! Acima da vitrine, a foto enorme de um bebê engatinhando com a frase: “Alô, bebê!”. A simplicidade do anúncio contrasta com a sofisticação dos que ficaram para trás. Aquela singela fotografia e a simplicidade do slogan cativam os passageiros.
A grande fotografia ainda está visível, duas crianças pequenas passam. Eu observo: — O bebê que engatinha, em meses, já ensaia passinhos. — Eu aprendi a andar com onze meses — completa Dona Eunice. — Aprender é o que nos faz humanos — continua o Sr. Carlos. — Concordo — digo. — Para isso, estudamos desde a infância. No horizonte, a lua em quarto crescente iluminava a noite. Dona Eunice aponta: — Olhem como a lua está bonita! — A lua me lembra o infinito do cosmos. Após uma pausa, contemplando o instante, acrescento: — Isso me lembra de como nossa vida é breve. Clara pondera: — E muitos a gastam sem olhar para o futuro. — O que importa é que concordamos em deixar essa herança real.
O trânsito frenético e as lojas cedem lugar gradativamente a casas e sobrados. Destacando-se na penumbra das ruas vazias, uma pequena placa iluminada e o logotipo amarelo anunciam o destino. Estaciono nas proximidades e desembarcamos para mais uma noite de intercâmbio animado sobre a obra logosófica. Entramos, a porta se fecha, o labirinto da metrópole fica para trás.